Se observamos o filme sob o ponto de vista de sua base narrativa, podemos notar sua relação com a literatura. Nesse sentido, a análise do filme pode se entrelaçar com a crítica literária, já que muitas teorias relacionadas ao cinema surgiram a partir da teoria literária (respeitando-se, é claro, as particularidades da linguagem cinematográfica).
Segundo Antonio Candido, na Formação da literatura brasileira, a narrativa de ficção constituiu, no século XIX brasileiro, uma “forma de pesquisa e descoberta do país” e um “instrumento de interpretação social” (CANDIDO, 2007, p.432). Isso porque, naquele momento histórico, o romance de ficção romperia com algumas normas do gênero e buscaria “temas e sugestões” na história, na economia, na política, na moral, na poesia e no teatro nacionais (Idem, p. 429), elementos que constituíam, portanto, um imaginário, senão completamente próprio da nação em formação, pelo menos local e específico do Brasil do século XIX. Como forma de instrumento investigativo, a ficção, nesse momento, procedeu a um levantamento e a uma exploração temática e formal, por meio da própria narrativa, de uma série de aspectos próprios do país, que incluíam (mas não se restringiam a) uma descrição de regiões, cenas, fatos e costumes. Os ficcionistas de então, quase com um senso de missão, acreditando na necessidade (e na sua responsabilidade) da edificação de uma nação e de uma cultura próprias, tentaram exprimir (e desenhar), minuciosamente, a sociedade em que viviam, a fim de constituir, para ela, “um sistema imaginário” (Ibidem).
A partir da generalização dos conceitos de Candido, podemos constatar a grande importância da arte, da literatura e, posteriormente, dos meios de comunicação e do cinema nos países que passaram pelo processo de colonização, pois, nesses países, o advento da independência política inaugurou também a necessidade de uma “alforria” em relação a padrões e imposições da colonização europeia. Dessa maneira, procurou-se configurar uma nova maneira de pensar o futuro com o objetivo de alcançar uma autonomia cultural, por meio da construção de uma identidade nacional, a partir de um histórico legado colonial de “trauma e resistência” (SHOHAT & STAM, 2006: 42). Em certas manifestações do cinema contemporâneo produzido em ex-colônias europeias, pode-se dizer que,
“[d]iante do historicismo eurocêntrico, os diretores do Terceiro Mundo e das minorias reescreveram suas próprias histórias, tomando o controle das próprias imagens e falando com suas próprias vozes” (Id., ibid.).
A arte, a literatura, o cinema, e os meios de comunicação ganham, nesse sentido, um caráter de resistência “às pressões estruturais dominantes”, conforme Bosi (BOSI, 1996: 16-18), já que são resultado de “uma consciência grupal operosa e operante que desentranha da vida presente os planos para o futuro” (Idem, p.16), e, assim, uma consciência “de um presente minado por graves desequilíbrios é o momento que preside à criação de alternativas para um futuro de algum modo novo” (Idem, p. 17). Essa dimensão de projeto, lembra Bosi, tende a crescer em épocas nas quais há possibilidade de mudança (na ordem política, social e econômica), como aconteceu nos países africanos de língua portuguesa na iminência (e depois) de suas respectivas independências.
Com base no conceito da “hegemonia do legado eurocêntrico na cultura dos meios de comunicação” (XAVIER, in SHOHAT & STAM, 2006: 11), estudar essas produções é entendê-las à luz das teorias pós-coloniais, ou seja, enquanto discursos e contra-discursos produzidos num contexto de diálogo, negociação e superação de modelos hegemônicos e contra-hegemônicos. Se “os meios de comunicação formam identidades”, conforme Shohat e Stam (SHOHAT & STAM, 2006: 28), é preciso verificar “quais estratégias narrativas e cinematográficas têm privilegiado perspectivas eurocêntricas e como tais perspectivas têm sido questionadas”.
Sob essa base teórica a respeito da narrativa ficcional é que entendemos as produções fílmicas africanas de língua portuguesa, segundo o conceito de Ismail Xavier (XAVIER, 1993), como alegorias da nação, e tentar perceber a partir de quais modos, nessas produções ficcionais, se constroem o sentimento nacional e o ideário de nacionalidade e de cultura.
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Momentos Decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2007.
SHOHAT, Ella e STAM, Robert. Crítica da Imagem Eurocêntrica. Multiculturalismo e Representação. São Paulo: CosacNaify, 2006.
XAVIER, Ismael. Alegorias do Subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1993.
Nenhum comentário:
Postar um comentário