Em Testamento acompanhamos a trajetória de Napumoceno, um dos homens mais ricos do arquipélago de Cabo Verde. Ali, ele fez sua fortuna e sua vida. Após a sua morte, surpreendentemente, deixa toda sua fortuna para uma filha secreta. Além dos bens, o pai deixa para a filha várias gravações, nas quais ele próprio narra sua chegada a Cabo Verde e sua ascensão na região. A partir dessas confissões reveladas em seu testamento, é que se descobre a vida secreta do senhor Napumoceno: um homem ambicioso, inteligente, oportunista. Através de seu relato sobre Graça (sua filha) e sobre a mãe de Graça, descobre-se também um homem sensível e apaixonado. (Francisco Manso, Portugal/Brasil/ Cabo Verde/ França/ Bélgica, 1997, Ficção, 117min, Cor).
Francisco Manso é um diretor português que já atuou como realizador e diretor de várias séries televisivas, documentários e filmes de curta e média metragem em Portugal. O seu primeiro longa foi Testamento, de 1997.
O Testamento do Sr. Napumoceno foi um dos primeiros filmes a serem rodados em terras cabo-verdianas. Testamento (título que recebe o filme, nome simplificado por razões comerciais) é uma coprodução dos países: Portugal, Brasil e Cabo Verde, e ganhou vários prêmios, entre eles, o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado, no Brasil, em 2007, além de melhor roteirista (Mário Prata) e Melhor Ator para Nélson Xavier.
O casting de Testamento é composto, grande parte, por atores brasileiros, como Nelson Xavier, que interpreta o protagonista Napumoceno; Maria Ceiça, que interpreta Graça, a filha do comerciante; Zezé Motta, que no filme é D. Eduarda, empregada de Napumoceno; Milton Gonçalves, o prefeito de Mindelo; Elisa Lucinda, D. Jóia, com quem Napumoceno tem um caso; Eliezer Motta, regente da banda de Mindelo; Chico Diàs, que interpreta Carlos, o sobrinho do protagonista. Chico, apesar de ser mexicano, mora no Brasil e fez muito sucesso em atuações em séries e filmes brasileiros.
A obra fílmica de Francisco Manso é uma adaptação do romance quase homônimo O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida. Este romance, de 1989, é o primeiro do autor. Nesta obra, Germano mostra um desejo de trazer novos ares para a literatura de Cabo Verde, dando início a uma nova face da literatura deste país, tal como era sua proposta. A preocupação de Germano de fugir dos assuntos próprios da Claridade, e seu desejo de revolucionar os temas literários podem ser nitidamente observados já pela razão de termos como protagonista da narrativa um abastado comerciante que fez fortuna através de uma chuva pontual, em um momento específico da cidade, chuva que deu grande impulso aos seus negócios, em lugar de um pobre agricultor que sofre com a fome e a seca.
O nosso protagonista Napumoceno “revelou-se logo nos primeiros anos por conta própria um comerciante de rara intuição ou então um homem de sorte macaca”, já que por um erro no pedido de guarda-chuvas (que serviriam como guarda-sóis, em um lugar que dificilmente cai água do céu), viu-se rodeado de 10 mil em seu armazém que, por conta de uma chuva inesperada, a “santa chuva”, o que pensava não conseguir vender em todos os dias de sua vida, vendeu em pouco mais de uma semana.
Entretanto, mesmo com o desejo de revolucionar os temas da literatura cabo-verdiana, O Testamento do Senhor Napumoceno não foge à análise dos acontecimentos a sua volta, e da posição do homem cabo-verdiano na sociedade. Diferentemente do olhar dos autores do movimento da Claridade, que procurava se ater a miséria do cabo-verdiano decorrente da estiagem, este novo olhar está interessado em denunciar, de forma muito sutil, as mazelas, sobretudo políticas e sociais, de uma sociedade ainda em construção.
Germano, ao construir a história de um abastado comerciante de São Vicente, ele, irônica e satiricamente, e de forma sutil, distribui suas alfinetadas, denunciando uma alta sociedade constituída de empresários ricos e corruptos, que deixam de pagar impostos, como é o caso de Napumoceno, em contraposição a uma lado da sociedade esquecido, pobre e com problemas de prostituição, que é representado pelo bairro onde Graça, sua filha, morava.
O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo mostra um país, anos imediatamente anteriores e posteriores a Independência Nacional, representado pela cidade mais importante (Mindelo), que sofreu os percalços do colonialismo, e que ainda passa por dificuldades decorrentes das secas, mas que, assim como outros países africanos que tiveram o mesmo processo histórico, Cabo Verde sofre com o problema da corrupção política e empresarial, bem como as desigualdades sociais.
O filme de Francisco Manso pode apresentar uma imagem de Cabo Verde um tanto distorcida, se não atentarmos para o seu apelo turístico e comercial. Ao assistir Testamento o espectador, que não conhece Cabo Verde, pode ter a sensação de que Cabo Verde é (somente) um país de paisagens e pessoas bonitas. A imagem é um tanto prejudicada também pela escolha da língua falada no filme (português, e não o crioulo, que é a língua mais comum em Cabo Verde); pela escolha dos atores, em sua grande maioria, brasileiros e famosos pelas suas atuações em filmes e novelas televisivas, além da escolha do gênero melodramático, muito divulgado através das novelas televisivas, principalmente na América do Sul. O gênero melodramático é conseguido muito graças aos atores brasileiros. As atuações brasileiras, moldadas pela dramaturgia de telenovela, são muito mais exageradas do que costumamos ver em atores africanos em geral. Isso não acontece somente neste filme. No geral, Testamento é um filme comercial que oferece tudo que o paladar do espectador comum procura: comicidade, sedução, paixões e um amor irrealizável. Além disso, o filme ainda oferece cenas sensuais, de mulheres bonitas e seminuas, e tomadas de paisagens da praia de São Vicente e do Porto de Mindelo.
Este filme é possível ser adquirido pelo site amozon.
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