Na cidade vazia, de Maria João Ganga

Na cidade vazia (Hollow City, título em inglês), de João Maria Ganga, conta a história de um menino, chamado Ndala, de doze anos, também órfão de guerra, numa Angola da década de 90, num cenário destruído pela guerra. Ndala chega à cidade com uma trouxa no ombro e um carrinho de lata (feito por ele). Trazido por missionários de Bié, o menino foge do grupo conduzido por uma freira, e sai perambulando pela cidade, atrás de alguém que o acolha. Ndala se encontra em um espaço estranho, com valores diferentes dos seus, e sonha em voltar para Bié, para suas origens e tradições. Na cidade é obrigado a enfrentar as práticas sociais frias e violentas. 
              (Maria João Ganga, Angola, 2004, Ficção, 90min, Cor)

     
     Maria João Ganga é angolana, e seu primeiro filme como diretora foi Na cidade vazia. Maria trabalha também como assistente de diretor, como no filme Rostov-Luanda, de Sissako. A diretora trabalha na direção não só de filmes, mas também de teatro.


     Na cidade vazia é uma adaptação cinematográfica inspirada no romance As Aventuras de Nagunga, de Pepetela, de 1972. Ambos são obras que procuram representar a realidade de seu país, e portanto funcionam como alegorizações de um conceito construído de "nação angolana". 
    O livro de Pepetela conta a história de um menino de 13 anos, órfão de guerra - sua família foi assassinada na Guerra de Libertação de Angola (1961-1975) - que deixa sua aldeia para um caminho de autoconhecimento e da realidade que o circunda. Ngunga realiza diversos deslocamentos espaciais, passando por kimbos e várias bases de guerrilha, chegando até a lutar no conflito bélico. Da sua curiosidade, coragem, e da experiência adquirida nas suas perambulações, é que vem seu conhecimento dos adultos e do mundo – mal e egoísta “os adultos eram assim egoístas?” (PEPETELA, 1980: 15). Com As Aventuras de Ngunga somos conduzidos por Pepetela ao interior de Angola, penetrando, assim, nos bastidores da luta armada: local de muitas experiências no percurso da construção da identidade nacional.
     No filme de Maria João Ganga, Ndala é um jovem que faz um percurso semelhante a Ngunga. O menino de doze anos, também órfão de guerra, vive na Angola da década de 90, onde podemos presenciar um cenário destruído pela guerra. Ndala chega à cidade trazendo na bagagem todas reminiscências valores do seu lugar de origem, Bié. Trazido por missionários do Bié, o menino foge do grupo conduzido por uma freira, e sai perambulando pela cidade (sempre fugindo da freira), atrás de alguém que o acolha. Ndala se encontra em um espaço estranho, com valores muito diferentes dos seus, e sonha em voltar para Bié, para suas origens e tradições. Na cidade vazia mostra um cenário angolano pós-guerra, cheio de violência, malandragem, individualismo. No filme temos a imagem de país diversa das idealizações de Ngunga, na obra de Pepetela.

(Para saber mais sobre a relação entre filme e livro, sugiro o excelente artigo da professora Dra. Fabiana Carelli Marquezini: "Aos cacos: imagens da nação angolana em As Aventuras de Ngunga e Na Cidade Vazia, livro e filme", que pode ser encontrado na Revista Via Atlântica, nº 13, 2008).

     Na cidade Vazia, infelizmente, não está disponível para compra no Brasil. O filme pode ser adquirido nos Estados Unidos através do site amazon

Quem puder adquiri-lo não vai se arrepender!

3 comentários:

  1. Bru, divulga o blog http://cine-africa.blogspot.com/ lá tem vários filmes africanos, não sei se tem "Na cidade vazia"
    Bjos

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  2. Nossa, gostei muito do blog. Estou finalizando meu curso em Ciências Sociais e meu trabalho de monografia será sobre Cinema Africano. Assisti recentemente Na Cidade Vazia e fiquei extremamente tocado com a delicadeza e poesia que Maria João Ganga conseguiu incorporar no filme, apesar de ambientar-se num contexto deveras adverso. Parabéns pelo blog.

    Obs: procurei bastante no google o artigo indicado da Prof. Fabiana Carelli, entretanto, não consegui encontrá-lo. Seria viável enviá-lo a mim por e-mail, caso o tenhas digitalizado? Ficaria muito grato.

    jonas.anasc@gmail.com

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  3. Oi, Jonas!

    Que bom que gostou do blog!
    Não estou conseguindo atualizá-lo ultimamente devido a correria. Também sou admiradora do cinema africano e Na cidade vazia é um filme maravilhoso mesmo!

    Quanto ao artigo da professora Fabiana, se você tiver acesso fácil à USP, poderia comprar a revista n. 13 (que é super acessível)no CELP dentro da Faculdade de Letras.

    Se não conseguir nos avise!

    Apareça mais vezes e nos conte um pouco sobre seu trabalho final.

    Abraços,
    Bruna

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